quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Origem da obra kardequiana no Brasil


Origem da obra kardequiana no Brasil
…] o primeiro livro da Codificação Kardequiana é manancial tão rico de valores morais para o caminho humano que bem pode ser considerado não apenas como revelação da esfera superior, mas igualmente como primeiro marco da Religião dos Espíritos, em bases de sabedoria e amor, a refletir o Evangelho sob a inspiração de Nosso Senhor Jesus Cristo. – Emmanuel¹
Jorge Damas Martins
O marco maior da Doutrina Espírita no mundo – como o Consolador prometido por Jesus (João, 14:16 e 17) – foi o lançamento de O livro dos espíritos, em 1857.
Este marco descortinou para a humanidade uma nova era de esperança, estabelecendo uma parceria indestrutível entre o aquém e o além. Esperança, sim! Pois a sabedoria do editor-livreiro Édouard Dentu (1830-1884) deu a lume um volume com a capa na cor verde da esperança. Tal iniciativa fez o pioneiro espírita J. Chapelot, grande escritor da cidade progressista de Bordeaux, escrever em 1863: “Verde não é o símbolo da Esperança? E a Esperança não é o símbolo da Caridade, que é o nosso lema?” (Réflexions sur le spiritisme: les spirites et leurs contradicteurs,2 pt. 1, cap. IV).
Esta esperança fez com que muitas pessoas da França e do estrangeiro procurassem o seu autor encarnado, Allan Kardec, visando mais esclarecimentos, dirimir dúvidas, obter provas e, principalmente, um resumo do grande livro do Espiritismo. Kardec, educador por excelência, usa toda a sua didática – como se estivesse escrevendo a meninos – e lança em 15 de janeiro de 1862 um opúsculo sensacional: O espiritismo na sua mais simples expressão. Seu espírito pedagógico chega a dar, no anúncio de lançamento, o subtítulo: “A Doutrina Espírita popularizada”. Ele mesmo justifica:
O objetivo desta publicação é dar, num panorama muito sucinto, um histórico do Espiritismo e uma ideia suficiente da Doutrina dos Espíritos, a fim de que se lhe possa compreender o objetivo moral e filosófico. Pela clareza e sim plicidade do estilo, procuramos pô-la ao alcance de todas as inteligências. Contamos com o zelo de todos os verdadeiros espíritas para ajudarem a sua propagação.³
Ora, foi precisamente com este opúsculo, que o anjo Ismael introduziu o pensamento espírita codificado por Allan Kardec nas terras brasileiras, que estão sob a direção deste guia, delegada pelo Governador planetário – Jesus Cristo. Esta ação espiritual é revelada pelo Espírito Humberto de Campos: “[…] Em 1860 surgem as primeiras publicações espiritistas. […]”.4,5
Vamos aos fatos que materializaram a ação espiritual de Ismael.
Em 1862, o Sr. Alexandre Canu publicou em língua portuguesa este famoso opúsculo com o seguinte título: O espiritismo na sua mais simples expressão: Exposto summario do ensino dos espíritos e das suas manifestações.6 Ele ainda informa que o seu texto foi “traduzido do francês com a autorização do autor”, Allan Kardec: “Autor do Livro dos Espíritos e Diretor da Revista espiritista”.7
Ele era secretário das sessões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fundada por Allan Kardec, em 1858.
Este livro em português foi impresso em Paris e distribuído pelos “Vª. J.-P. Aillaud, Molon e Cª. – Livreiros de Suas Majestades o Imperador do Brasil e el-Rei de Portugal,8 rua Saint-André-des-Arts, 47”.9 A sua gráfica também ficava nesta cidade francesa: Typographie Rignoux, rua Monsieur-le-Prince, 31.
Folga-me a notícia da colaboração de D. Pedro II na história do Espiritismo. Seu liberalismo era de fato surpreendente. Aliás, é como ensina Emmanuel:
Allan Kardec, todavia, na sua missão de esclarecimento e consolação, fazia-se acompanhar de uma plêiade de companheiros e colaboradores, cuja ação regeneradora não se manifestaria tão somente nos problemas de ordem doutrinária, mas em todos os departamentos da atividade intelectual do século XIX. […]10
1.   Pedro II é um bom exemplo disto.
Alexandre Canu era “Professor em Paris”, por isso que o educador Allan Kardec o chama de “colega”, em artigo deste professor publicado na Revista Espírita.11 O opúsculo informa que ele residia na rua Lamartine, 46, em Paris. No Prólogo o tradutor registra palavras interessantes:
Ainda que pouco versado em estilo português, porém movido da importância do assunto assombroso de que aqui se trata, e que está hoje maravilhando o mundo inteiro, e também da necessidade de espalhá-lo, quanto antes, por toda a parte, não duvidei de traduzir esta obrazinha elementar, já vertida em muitas línguas, a fim de levá-la ao conhecimento dos povos que falam a língua portuguesa, e pô-los em estado de se estabelecerem numa descoberta tão espantosa, por meio das obras especiais do homem eminente [Allan Kardec] que foi o primeiro propagador, e ainda é hoje o maior vulgarizador desta ciência sublime, que há certamente de transformar em pouco tempo a humanidade; descansando eu, quanto à tradução, na indulgência daqueles que, nas cousas desta ordem, antes consideram o fundo que a forma. O Tradutor, A. C.12
O que significa, em suas palavras: “Ainda que pouco versado em estilo português […]”? É uma história muito interessante. Vamos aos fatos:
Alexandre Canu chegou a morar no Brasil em 1842, numa leva de 100 famílias francesas, contratadas por D. Pedro II, para fundar, pelo sistema socialista de François Marie Charles Fourier (1772-1837) – filósofo e socialista francês –, a Colônia do Sahy, em Santa Catarina (RS). Essas famílias foram selecionadas por suas crenças espiritualistas pelo Sr. Jean- -Baptiste-Ambroise Marcellin Jobard (1792-1861),13 futuro presidente honorário da Sociedade Espírita. Entre os selecionados para aportarem no Brasil, destacamos o eminente Dr. Benoît Jules Mure (1809-1858) – introdutor da Homeopatia e do Magnetismo espiritualista em nossas terras e fundador da escola Hahnemaniana.14
A imprensa divulgou o projeto da Colônia do Sahy. O Dr. Benoît Mure era discípulo de Charles Fourier – um dos precursores do Espiritismo. Mure era partidário das doutrinas societárias sobre a colonização e propôs trazer da França 100 famílias [cerca de 500 pessoas] de “oficiais de ofício, como mestres, diretores, & C.”, as quais pretendia estabelecer no Brasil sob a forma indicada pelo socialista Fourier.
É bom lembrar que o Dr. Bezerra de Menezes destaca o pensamento reencarnacionista de Fourier – “o criador da escola falansteriana” – em sua famosa carta a seu irmão mais velho, Manoel Soares da Silva Bezerra:
Onde o velho que não queira estar seguro de renascer e de levar à futura existência a experiência do presente? Pretender que esse desejo deva ficar sem realização é admitir que Deus nos pode enganar. É preciso reconhecer que já temos vivido antes de sermos o que somos e que muitas outras vidas nos esperam e outras em uma esfera superior ou extramundana, com um corpo mais sutil e sentidos mais delicados.15,1
Mas qual o motivo da escolha do Brasil para esta missão colonizadora? É que o Dr. Mure costumava repetir aos gritos, num profético clamor: “Do Brasil há de partir a luz, que deve alumiar o mundo sábio”. (Archivo médico brasileiro, tomo III, n. 10, p. 222, jun. 1847.)
O Dr. Mure viajou pelo sul do Brasil e conseguiu encontrar em Santa Catarina um lugar apropriado para o estabelecimento da Colônia, devendo à generosidade do tenente-coronel Francisco de Oliveira Camacho (1784-1862) – homem de muitas posses –, terreno suficiente para esse fim.17 Mure então solicita ao governo imperial, não como donativo, mas como simples empréstimo, a quantia necessária para o transporte das 100 famílias da França para o Brasil e para o sustento delas no primeiro ano em que estivessem no império, comprometendo- se a pagar esse empréstimo com máquinas de vapor. Assim, D. Pedro II apoia o seu projeto:
O Dr. Mure, sabemos que foi ultimamente apresentado a S.M.I., que o tratou com benevolência e mostrou grande interesse pela colônia societária. (O Brasil, v. I, n. 115, p. 4, 6 de abril de 1841.)
Voltemos ao professor Alexandre Canu. Ele afastou-se da Colônia do Sahy, em 1843, por julgar inviável o projeto, mas teve sorte de prosperar na corte, no Rio de Janeiro, onde veio a contrair segundas núpcias, retornando a Paris em 1846.
E, agora, o mais importante: ele era médium psicofônico e sua segunda esposa, Mme. Canu, brasileira, médium sonambúlica inconsciente. Mas o que nos surpreende é saber que os dois prestaram relevantes serviços na composição da primeira edição de O livro dos espíritos, de 1857. 18
Saber que há contribuição brasileira na formação do livro basilar da Terceira Revelação, dá um novo sabor na apreciação de sua leitura. Então, desde os primórdios da Codificação Espírita, França e Brasil já estavam unidos ao Consolador Prometido.
Vale a pena refletir sobre as palavras ricas de experiência do professor Alexandre Canu, a respeito da obra magna do Espiritismo: “Estuda, lê, relê, experimenta, trabalha e, sobretudo, não desanimes, porque a coisa vale a pena”.19
REFERÊNCIAS:
1 XAVIER, Francisco C. Religião dos espíritos. Pelo Espírito Emmanuel. 22. ed. 3. imp. Brasília, FEB, 2013. Religião dos espíritos, p. 10.
2 Em 2005, a editora Madras de São Paulo, baseada no resgate que fizemos desta obra junto à BNF, publicou a tradução de Roseane Resende de Freitas com o título: O problema da justiça de Deus e do destino do homem.
3 KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 5, n. 1, p. 51, jan. 1862. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2009.
4 XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. Brasília: FEB, 2015. cap. 23, p. 142.
5 Outro destacado livro dos anos de 1860: Os tempos são chegados, do francês e professor Casimir Lieutaud. Ver a biografia deste autor no livro Túnel do tempo. MONTEIRO, Eduardo Carvalho [Pesquisa: Jorge Damas Martins]. São Paulo: Ed. Madras, 2005. p. 27-115.
6 N.R.: Título original da tradução de 1862.
7 N.R.: Trecho retirado da folha de rosto do opúsculo traduzido por Alexandre Canu.
8 Luís I, “O Popular”, “O Bom”, reinou de 1861 a 1889.
9 N.R.: Folha de rosto do opúsculo citado.
10 XAVIER, Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 23, p. 185.
11 KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 4, n. 1, p. 51, jan. 1861. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. 2. reimp. Brasília: FEB, 2010. Carta sobre a incredulidade, p. 35.
12 CANU, Alexandre. O espiritismo na sua mais simples expressão: exposto summario dos espíritos e das suas manifestações. 3. ed. Paris, 1862.
13 Ver sua biografia em Reformador, ano 125, n. 2.145, p. 35(481)-37(483), dez. 2007.
14 Para maior conhecimento da chegada dos franceses à Colônia do Sahy, ver o livro Em verdade vos digo. Organizador: Júlio Couto Damasceno [Prefácio: Jorge Damas Martins]. Rio de Janeiro: CRBBM, 2008. p. 15.
15 MENEZES, Bezerra de. Uma carta de Bezerra de Menezes. 9. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2014. A Doutrina Espírita como filosofia teogônica, p. 69 [ver nota de rodapé 203 da op. cit.].
16 Para maior visão do pensamento espírita de Fourier, ver o livro A pluralidade das existências da alma. PEZZANI, André. [Introdução e notas: Jorge Damas Martins]. Rio de Janeiro: Associação Editora Espírita F. V. Lorenz, 2009. liv. terceiro, cap. VI.
17 Há um emocionante e intrigante romance espírita que trata, com dados históricos fidedignos, da colonização do Sahy, inspirado nas ideias de Fourier: O magneto. CAMARGO, Mauro. 2. ed. Bragança Paulista (SP): 3 de Outubro Editora Ltda., jun. de 2011.
18 Ver O livro dos espíritos e sua tradição histórica e lendária. ABREU, Canuto. São Paulo: Edições LFU, 4/1992. cap. 7, p. 148.
19 KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 4, n. 2, p. 88, fev. 1861. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. 2. reimp. Brasília: FEB, 2010.


Pilula de Consolo


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

EXORTAÇÃO AO AMOR - Mensagem psicofônica do Espírito Bezerra de Menezes em 27.09.2015




EXORTAÇÃO AO AMOR
 
Todos vós, que tendes a honra de conhecer o Evangelho de Jesus, parai por um momento e reflexionai.

A vida tem um sentido ético-moral de profundidade.
O fenômeno vegetativo pertence à organização material. Somos seres imortais, mesmo quando a desencarnação posterga o momento da chegada, anuncia que virá logo mais, e arrebatando-nos para o país da consciência livre, esse ser angélico que é a morte libertadora, fará que, no exame de consciência, repassemos os nossos atos pregressos numa maravilhosa manifestação de lembranças que nos darão a plenitude ou o tormento.

Filhos da alma! Tendes conhecimento dos valores da vida. Não vos encontrais no planeta terrestre por capricho do acaso, mas, graças a uma Causa consciente, que é a Divindade, e criou-vos para a glória estelar. 

Se caminhais pelas ínvias estradas do mundo sob chuvas de dores bendizei-as; se marchais sobre pedrouços e tendes os pés crivados de espinhos, bendizei a dor, agradecei a Deus a dádiva da purificação espiritual. 

Nascestes para a glória de vossa existência.
Amai quanto puderdes, amai um grão de areia que pode refletir uma estrela ou o luar em grande plenilúnio; servi, porque o serviço é a característica da inteligência, desde os fenômenos mais primários da domesticação até os mais sublimes da integração da criatura com o Criador. 

O serviço é a paz de Deus deslocando-se, desdobrando-se para o reino dos Céus. 

Ide para os vossos lares e levai a certeza de que a vossa vida deve experimentar essa profunda mudança para o amor, para verdade, para a Vida em si mesma

Em nome de vossos Espíritos guias e das Entidades venerandas que aqui estão conosco, dos Espíritos-espíritas, rogamos a Deus que vos abençoe, que nos abençoe, com os melhores votos de ternura e paz.

Do servidor humílimo e paternal de sempre,

Bezerra de Menezes, 

(Mensagem psicofônica recebida pelo médium Divaldo Pereira Franco, no encerramento da conferência proferida em 27 de setembro de 2015, na Instituição Assistencial e Educacional Amélia Rodrigues, em Santo André, SP.)

Informação retirada do site:http://www.redeamigoespirita.com.br

Pilula de Consolo


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Bezerra de Menezes ontem, hoje e sempre





DR. ADOLFO BEZERRA DE MENEZES
Nos ensina o Dr Bezerra de Menezes: “A vida, sob qualquer aspecto considerado, é dádiva de Deus que ninguém pode perturbar. Todos os seres sencientes desenvolvem um programa na escala da evolução demandando a plenitude, a perfeição que lhes é meta final.
Preservar a vida, em todas as suas expressões é dever inalienável, que assume a consciência humana no próprio desenvolvimento da sua evolução.
Quando alguém levanta a clava para interromper propositalmente o ciclo da vida, faz-se um novo Caim, jogando sobre si mesmo a condenação da consciência de culpa e experimentando, no remorso, hoje ou mais tarde, a necessidade de depurar-se, reabilitando-se, ao nadar nos rios das lágrimas.”

Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti
Nascido na antiga Freguesia do Riacho do Sangue, hoje Solonópole, no Ceará, aos 29 dias do mês de agosto de 1831, desencarnou em 11 de abril de 1900 no estado do Rio de Janeiro.

A Infância e a Família
Seu pai, Antônio Bezerra de Menezes, capitão das antigas milícias e então tenente-coronel da Guarda Nacional, tinha fazendas de criação de gado; sua mãe chamava-se Fabiana de Jesus Maria Bezerra e era senhora do lar. Antônio era importante fazendeiro local que “nunca mediu sacrifícios, na hora de socorrer àqueles que lhe estendiam a mão”. Tanta generosidade acabou por levar sua fortuna material e em determinada altura as dívidas alcançaram níveis insuportáveis.

Antônio foi então procurar cada um de seus credores decidido a entregar seus bens para saldar as dívidas. Os credores, contudo, reuniram-se e decidiram que o coronel Bezerra continuaria com seus bens. Assinaram um documento que afirmava com força legal que o velho Bezerra ficasse com eles e “que gozasse deles e pagasse como e quando quisesse, que eles, credores, se sujeitariam aos prejuízos que pudessem ter.” O velho Bezerra, contudo, não aceitou tal decisão.

Depois de muita discussão, resolveu que daquela data em diante seria simplesmente um administrador dos bens para seus credores. Retirava apenas o extremamente necessário para o sustento da família e muitas vezes passou privações. A esta altura, o menino Adolfo, último filho do casal, já estava terminando o então chamado curso preparatório. Os dois filhos mais velhos tinham se formado em direito e o terceiro ainda cursava o segundo ano na Faculdade de Direito de Olinda, Pernambuco.

O pequeno Adolfo Bezerra de Menezes tinha sete anos de idade quando foi levado pela mãe para ser matriculado na escola pública da Vila do Frade. Em dez meses o menino aprendeu a ler, escrever e fazer contas simples. Quatro anos depois, quando o pai estava sendo alvo de perseguição política, a família mudou-se para o Rio Grande do Norte. O pequeno Adolfo “foi matriculado na aula pública de latinidade, que funcionava na Serra dos Martins e era dirigida por padres jesuítas” em Maioridade, hoje cidade de Imperatriz. Após dois anos, o rapaz tornou-se tão bom na matéria que chegou a substituir o professor.

Em 1846, o velho Bezerra voltou para a capital do Ceará, onde o pequeno Adolfo foi matriculado no Liceu, que era dirigido pelo seu irmão mais velho. Terminando seus estudos, mostrou a vontade de ser médico, e não advogado como os irmãos. Como não havia faculdade de medicina no Nordeste do país, o pai foi obrigado a mandá-lo para a então sede da Corte, a cidade do Rio de Janeiro; contou-lhe tudo que havia acontecido com os bens da família, explicando a pobreza por que passavam. Os parentes cotizaram-se e levantaram quatrocentos mil réis para pagar a viagem até o Rio. Foi assim que Adolfo Bezerra de Menezes pôde pegar o navio e chegar na então sede do Império.

O Sacerdócio na Medicina 

Aos vinte e dois anos, ingressou como praticante interno no Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Doutorou- se em 1856 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, defendendo a tese "Diagnóstico do Cancro". Nessa altura abandonou o último patronímico, passando a assinar apenas Adolfo Bezerra de Menezes.

Como não tinha dinheiro para montar um consultório, entrou em acordo com um colega de faculdade que possuía mais recursos e passou a dividir uma sala no centro comercial da cidade. Durante os meses em que o consultório ficou aberto, quase não houve pacientes. Mas a casa onde morava o médico Bezerra ficava repleta de doentes. Começou a atender aos componentes da família e depois aos amigos. Sua fama correu pelo bairro e os clientes apareciam; mas ninguém pagava, pois eram todos gente pobre e o dinheiro nunca foi mencionado.

Foi então que um amigo e médico militar, Dr. Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, chefe do corpo de saúde do Exército, resolveu contratá-lo como médico militar. Dr. Feliciano era chefe da clínica cirúrgica do Hospital da Misericórdia, hospital este onde o Dr. Bezerra tinha sido praticante e interno em 1852, quando ainda cursava o segundo ano de faculdade. Ainda em 1856, o governo imperial fez a reforma do Corpo de Saúde do Exército e nomeou o Dr. Feliciano como cirurgião-mor. Ele, então, chamou Bezerra para ser seu assistente e foi assim que, com um emprego remunerado estável, começou o caminho do médico dos pobres.

Bezerra continuava atendendo gratuitamente aqueles que não podiam pagar. Sua fama continuava a se espalhar e o consultório do centro da cidade começou a ficar movimentado, também com clientes que pagavam. O dinheiro que recebia no consultório era gasto com os seus pobres em remédios, roupas ou simplesmente auxílio em dinheiro.

Bezerra de Menezes tinha a função de médico no mais elevado conceito, por isso, dizia ele: "Um médico não tem o direito de terminar uma refeição, nem de perguntar se é longe ou perto, quando um aflito qualquer lhe bate à porta. O que não acode por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar- se fatigado, ou por ser alta hora da noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou no morro, o que sobretudo pede um carro a quem não tem com que pagar a receita, ou diz a quem lhe chora à porta que procure outro -- esse não é médico, é negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros dos gastos de formatura. Esse é um desgraçado, que manda para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu Espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida."

O Casamento e a Iniciação Política
Com a vida mais organizada, resolveu casar tendo encontrado o amor na pessoa de D. Maria Cândida Lacerda; casaram-se em 6 de novembro de 1858. Nesta época, tinha posição social: além de médico, era jornalista, escrevendo para os principais jornais da cidade; no meio militar era muito respeitado. Não demorou muito até que lhe oferecessem um lugar na chapa de um partido para as eleições do Poder Legislativo.

D. Maria foi uma das maiores incentivadoras da candidatura de Bezerra de Menezes. Os habitantes de São Cristóvão, bairro onde morava e clinicava, também queriam tê-lo como representante na Câmara Municipal; foi assim que em 1860 foi eleito por um grupo de São Cristóvão. Mas houve uma tentativa de impugnar seu diploma sob o pretexto de que um militar não poderia ser eleito. Bezerra teve então de escolher entre a carreira militar e a política. Seguindo os conselhos de sua esposa, renunciou à patente militar e abraçou a vida política de vez.

Contudo, o destino reservava-lhe uma difícil provação para o ano de 1863. Depois de uma doença rápida e repentina, sua esposa desencarnava em menos de vinte dias no outono deste ano. Deixava o marido com dois filhos: um com três anos e outro com um ano de idade.

O golpe da viuvez moveu os sentimentos religiosos que a dor sempre traz à tona. Em busca de consolação, Dr. Bezerra passou a ler a Bíblia com freqüência. Verificava a expansão vertical que a dor oferece às almas dos que sofrem, ligando-os a Deus.

Re-Conhecendo Doutrina Espírita

No mundo, o Espiritismo estava a se expandir. Em 1869 desencarnava Allan Kardec em Paris , deixando consolidada para a humanidade a Codificação Espírita. As idéias de Kardec eram revolucionárias e atraíam a atenção de sérios investigadores e cientistas mundo afora. Desencarnado o Codificador, restava a Obra a arregimentar novos espíritas.

No Brasil, principalmente na Capital, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, as influências européias modificavam a vida local. A homeopatia popularizava-se aos poucos, principalmente nos meios espíritas. Teve como um dos seus primeiros experimentadores o baluarte da República José Bonifácio de Andrada e Silva ; “Desde 1818, o Brasil principiara a ouvir falar da homeopatia. O Patriarca da Independência correspondia-se com Hahnemann” , o criador da Homeopatia . Como médico, as discussões sobre a terapêutica homeopática também interessaram ao Dr. Bezerra de Menezes e notícias de curas creditadas a essa terapêutica chegaram a seus ouvidos.

O Dr. Carlos Travassos havia empreendido a primeira tradução das obras de Allan Kardec e levara a bom termo a versão portuguesa de "O Livro dos Espíritos". Logo que esse livro saiu do prelo levou um exemplar ao deputado Bezerra de Menezes, entregando- o com dedicatória. O episódio foi descrito do seguinte modo pelo futuro Médico dos Pobres: "Deu- mo na cidade e eu morava na Tijuca, a uma hora de viagem de bonde. Embarquei com o livro e, como não tinha distração para a longa viagem, disse comigo: ora, adeus! Não hei de ir para o inferno por ler isto... Depois, é ridículo confessar- me ignorante desta filosofia, quando tenho estudado todas as escolas filosóficas. Pensando assim, abri o livro e prendi- me a ele, como acontecera com a Bíblia. Lia. Mas não encontrava nada que fosse novo para meu Espírito. Entretanto, tudo aquilo era novo para mim!... Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no "O Livro dos Espíritos". Preocupei- me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou, mesmo como se diz vulgarmente, de nascença".

Medicina e Espiritismo 

A Doutrina Espírita difundia-se, em muito ajudada pelas práticas de médicos homeopatas e espíritas, que passaram a prestar a Caridade também através de sua mediunidade . Um desses médicos era João Gonçalves do Nascimento ; muitos colegas de Bezerra de Menezes falavam das curas operadas através deste médium e tanto falaram que um dia Bezerra resolveu pedir-lhe uma receita enviando um pedaço de papel que dizia: “Adolfo, tantos anos, residente na Tijuca”). Logo recebeu uma resposta com o diagnóstico correto de seu problema de estômago.

Ficou tão impressionado que resolveu pedir receitas também para pessoas que apresentavam problemas psíquicos — a loucura foi uma das áreas que Dr. Bezerra mais estudou. Acompanhou o desenvolvimento do tratamento em seus pacientes e depois de simplesmente assistir aos trabalhos desobsessivos, resolveu participar ativamente nesse tipo de tratamento. Na visão da Doutrina Espírita, os portadores de doenças psíquicas são pessoas que podem apresentar problemas mentais devido às causas biológicas detectáveis pela ciência humana e também devido à influência de espíritos de desencarnados , também doentes.

Segundo Casamento e a Carreira Política
Em 1864, Bezerra foi reeleito vereador e casou-se com D. Cândida Augusta de Lacerda Machado , irmã materna da sua primeira esposa. Com ela, sua esposa até o leito de morte, teve sete filhos.

Deu continuidade à sua carreira política. Em 1867 foi aclamado e eleito deputado geral. Em 1878 foi reeleito deputado, tornou-se presidente da Câmara Municipal (correspondente ao atual cargo de Prefeito Municipal) e líder do seu partido, permanecendo no cargo até 1881. Manteve diversas lutas políticas, sendo conhecido como homem público que não comprometia seus princípios para colher favores ou posições.

A exemplo do que ocorre com todos os políticos honestos, uma torrente de injúrias que cobriu o seu nome de impropérios. Entretanto, a prova da pureza da sua alma deu- se quando, abandonando a vida pública, foi viver para os pobres, onde houvesse um mal a combater, levando ao aflito o conforto de sua palavra de bondade, o recurso da ciência de médico e o auxílio da sua bolsa minguada e generosa.

Desviado interinamente da atividade política e dedicando- se a empreendimentos empresariais, criou a Companhia de Estrada de Ferro Macaé a Campos, na então província do Rio de Janeiro. Depois, empenhou- se na construção da via férrea de S. Antônio de Pádua, etapa necessária ao seu desejo, não concretizado, de levá-la até o Rio Doce. Era um dos diretores da Companhia Arquitetônica que, em 1872, abriu o "Boulevard 28 de Setembro", no então bairro de Vila Isabel, cujo topônimo prestava homenagem à Princesa Isabel. Em 1875, era presidente da Companhia Carril de S. Cristóvão.

Retornando à política, foi eleito vereador em 1876, exercendo o mandato até 1880. Foi ainda presidente da Câmara e Deputado Geral pela Província do Rio de Janeiro, no ano de 1880.

A Organização do Movimento Espírita

O amor e dedicação de Bezerra pela Doutrina Espírita deram bons frutos e ele veio a exercer papel fundamental no Movimento Espírita brasileiro. Nessa época o Espiritismo no Brasil buscava organizar-se: em 1876 surgia a primeira sociedade espírita no Rio de Janeiro; em 1883, Augusto Elias da Silva , interessado na difusão dos ensinos espíritas, fundava a revista O Reformador e punha-se a procurar colaboradores.

O espiritismo sofria perseguições e era combatido veementemente. A imprensa era fonte diária de críticas ferozes; os sermões enchiam os púlpitos de insultos e insinuações contra a Doutrina. Elias da Silva foi então buscar em Bezerra de Menezes conselhos sobre como revidar toda a animosidade contra o Movimento Espírita. A resposta dada pelo Dr. Bezerra foi o de não seguir o caminho do ataque, de não combater o ódio com o ódio, mas antes combater o ódio com o amor . A tônica deste conselho norteou toda a vida e o trabalho de Bezerra, dentro e fora do Movimento Espírita brasileiro.

Pela Unificação do Movimento Espírita

Em 1883, reinava um ambiente francamente dispersivo no seio do Espiritismo brasileiro e os que dirigiam os núcleos espíritas do Rio de Janeiro sentiam a necessidade de uma união mais bem estruturada e que, por isso mesmo, se tornasse mais indestrutível.

A cisão era profunda entre os chamados "místicos" e "científicos", ou seja, espíritas que aceitavam o Espiritismo em seu aspecto religioso, e os que o aceitavam simplesmente pelo lado científico e filosófico.
No dia 27 de dezembro de 1883, Augusto Elias da Silva faz uma reunião com os 12 companheiros que o ajudavam no REFORMADOR. Nesse encontro, eles decidem fundar uma nova instituição, que não fosse nem mística, nem científica, deveria ser ideologicamente neutra.
Assim, no dia 1° de janeiro de 1884 foi fundada a Federação Espírita Brasileira (FEB), que promoveria a doutrinação, a disciplina e o intercâmbio de experiências entre os diversos centros já existentes. Bezerra foi um dos primeiros a ser convidado para assumir a posição de presidente da organização, mas não aceitou por não se considerar capaz de tamanha responsabilidade. Seu primeiro presidente foi o Marechal Ewerton Quadros e o O REFORMADOR torna-se o órgão oficial da FEB.
Em 1887, o Médico dos Pobres passou a escrever uma série chamada “Espiritismo — Estudos Filosóficos”, que saía aos domingos no jornal “O País ”, com o pseudônimo de Max . Vale lembrar que na época esse era o jornal mais lido no Brasil. Continuaria a série de artigos até o Natal de 1894. Escreveria depois, com o mesmo pseudônimo, em outros dois jornais sempre em defesa dos postulados do Cristo Jesus, calcado na visão espírita .
Em 1888, logo no início da série de artigos, Dr. Bezerra perdeu dois filhos. Reagiu e continuou trabalhando. Durante cinco anos, escreveu sobre a Doutrina, elucidou muitas pessoas e arrebanhou outras tantas para as fileiras espíritas.
Em 1889, o Marechal Ewerton Quadros foi transferido para Goiás, ficando impossibilitado de permancer à frente da FEB.
Para seu lugar, foi eleito o famoso médico e deputado Adolfo Bezerra de Menezes, que, há cerca de três anos, havia chocado a sociedade carioca com a sua conversão ao Espiritismo. A intenção dos febianos era colocar um elemento de grande prestígio e força moral na presidência, a fim de fortalecer o processo de unificação.
Em 1889, o Dr. Bezerra tornou-se presidente da Federação Espírita, onde tentou a todo custo promover a união de todos os espíritas, inspirado principalmente por mensagem ditada mediunicamente por Allan Kardec em janeiro do mesmo ano, através do médium Frederico Júnior , chamada “Instruções de Allan Kardec aos Espíritas do Brasil ”.

Bezerra lutou muito para apaziguar as diferenças dentro do meio espírita e tinha como objetivo promover uma liderança que abrigasse todos os espíritas do Brasil. Quanto mais aumentavam as dissensões, mais aumentava também seu esforço e trabalho.
Na falta de pregadores espíritas cristãos, assumiu ele mesmo a função. Iniciou uma sessão semanal na Federação para o estudo de O Livro dos Espíritos no dia 23 de maio de 1889 e os resultados obtidos foram os melhores possíveis, com o grande número de pessoas que lá compareciam.

Além disto, realizava conferências e reuniões em uma casa espírita chamada União. Em outra casa chamada “Centro ”, que ele mesmo fundara para promover o estudo do Evangelho e de O Livro dos Espíritos, tentava conciliar as diferentes correntes de pensamento espírita. E ainda em um outro grupo, participava dos trabalhos de desobsessão .

A mensagem “Instruções”, de Kardec, fornecia as diretrizes para o trabalho do Dr. Bezerra . A certa altura Kardec pergunta: “Onde está a escola de médiuns?” e esse ponto ficou gravado na mente de Bezerra. Na realidade, ele não encontrou uma escola de médiuns em parte alguma. A solução encontrada foi fundar ele mesmo a tal escola.

Muitos se opuseram à idéia, mas ele terminou por instalar a “Escola de Médiuns ” no “Centro ”. Foi quando se viu só, pois nem mesmo os próprios membros da diretoria desta instituição freqüentavam a escola. Chamou a todos, mas ninguém comparecia.

Contudo, a Doutrina ganhava terreno em outras áreas. “A Federação inaugurava o seu período áureo, preparando-se para a projeção formidável que iria ter no futuro”. Instituiu-se o serviço filantrópico de “Assistência aos Necessitados”, que atraiu muita gente.

Bezerra continuava esquecido no “Centro ”, mas mesmo assim manteve firme seus propósitos. A situação chegou a um ponto em que a despesa e os gastos da instituição tornaram-se insustentáveis, e Bezerra já não podia usar de seus próprios recursos. Convocou por carta cada um dos membros da diretoria, para buscar a solução do problema. Ninguém atendeu ao chamado.
Na semana seguinte, convocou-os novamente. Ninguém veio. Foi à casa de um por um para convocar uma última reunião que fosse. Nem mesmo assim eles queriam comparecer. Bezerra foi então sozinho procurar abrigo em outra casa espírita, onde foi bem recebido. Mas a boa acolhida não durou muito tempo, já que apareceriam novamente as dissensões entre as correntes de pensamento espírita. O Movimento Espírita carecia de união.

A Proibição do Espiritismo
O Brasil seguia em frente fazendo sua História. Em 1889, a República foi proclamada. Nosso país não mais seria governado por um imperador, mas por um presidente eleito pelo voto.
Em outubro de 1890, entrou em vigor o então Novo Código Civil . A recém proclamada República vivia com receio de conspiração daqueles contrários ao novo regime e por isso o Código Civil impunha limites às associações das pessoas, dentre as quais as reuniões espíritas. Reuniões de qualquer natureza eram denunciadas à polícia sob suspeita de conspiração.
O Reformador teve sua publicação suspensa; as casas espíritas chegaram a fechar.
O receio fez com que as diversas organizações espíritas se unissem e tomassem uma atitude, encabeçadas pela Federação . No final de 1890, enviaram todas unidas uma “Carta Aberta” ao Ministro da Justiça e um grupo de representantes ao Governo, que entrou com recursos à Constituinte.
Na Europa, o Espiritismo vivia um clima muito voltado à pesquisa dos fenômenos mediúnicos, tendência que chegou também ao Brasil. Todos os estudos ficaram voltados para o fenômeno , dando uma menor importância aos princípios morais enfocados pela doutrina codificada por Kardec. E o Evangelho ficou relegado a um segundo plano.
Dr. Bezerra , “que não podia compreender Espiritismo sem fé religiosa”, manteve-se no seu trabalho devocional, totalmente isolado das tendências da moda. Continuava escrevendo os artigos doutrinários no “País”, ia ao “Centro Ismael ”, e trabalhou até mesmo em um romance chamado “Lázaro, o Leproso”, publicado em 1892.
Em 1893, a situação ficou crítica. Dr. Bezerra estava só e desprovido de recursos materiais. Nunca havia se preocupado muito com suas finanças e assim chegou ao fim de suas reservas. Por sua vez, a situação política do país estava muito conturbada no final daquele ano pela Revolta da Armada, e as tropas estavam acampadas nas ruas. Já em setembro, houve o fechamento de todas as sociedades, espíritas ou não. No Natal do mesmo ano Bezerra encerrou a série de "Estudos Filosóficos" que vinha publicando no "O Paiz".

Reconstruindo o Movimento Espírita
Em 1894, apesar das divergências, as diferentes correntes restauraram a Federação, e em seguida, retomaram a publicação do Reformador. As novas diretrizes tencionavam alcançar o meio termo entre Fé e Ciência , Amor e Razão ; mas as lutas entre os irmãos espíritas continuavam.

Com as desavenças, Dias da Cruz, o então presidente da Federação, deixou o cargo. Em 1895, o presidente seguinte, Júlio Leal , também o deixou. Restaram o cargo vago e a dúvida sobre quem convocar para ocupar a presidência.

O único nome que surgiu como consenso foi o de Bezerra de Menezes, e, em julho de 1895, um grupo de membros da diretoria da Federação bateu à sua porta. Bezerra estava cansado, doente, abatido pela dissensão entre os irmãos espíritas; apesar de todos os argumentos apresentados, não aceitou o convite. “Com a perspectiva de poder conciliar a grande família espírita em torno do ideal cristão, o venerando ancião prometeu pensar”.

No dia seguinte, foi como sempre à sessão das sextas-feiras do Grupo Ismael , onde dirigia os trabalhos. Abriu os trabalhos, mas parecia aflito, com a cabeça entre as mãos. Depois da prece de abertura, feita por Bittencourt Sampaio, permaneceu na mesma posição. Quando por fim se levantou, estava transtornado e ficou assim durante a primeira etapa dos trabalhos, que consistia do recebimento de mensagens psicografadas. No momento da explanação dos temas evangélicos, Bezerra falou visivelmente emocionado das desavenças no Movimento Espírita e sobre o convite que havia recebido. Confessou-se fraco para assumir a posição àquela altura dos acontecimentos.

Terminou a explanação pedindo auxílio à Espiritualidade e prometeu seguir o que lhe fosse indicado. Pouco depois, o espírito Agostinho manifestou-se pelo médium Frederico Júnior , o mesmo médium que anos antes havia sido instrumento de Allan Kardec (Espírito) para ditar as “Instruções de Allan Kardec aos Espíritas do Brasil ”. Agostinho instruiu que Bezerra tomasse o cargo da presidência e se pusesse como elemento conciliador capaz de unir e erguer a família espírita, prometendo auxiliá-lo em mais esta tarefa. Naquela mesma noite Bezerra de Menezes anunciou aceitar o cargo, permanecendo presidente até 1900, quando voltou a pátria espiritual.

Desencarne

Em janeiro de 1900, Dr. Bezerra sofreu violento derrame cerebral, que o prostrou em uma cama. Durante três meses Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti agonizou sem poder falar ou se movimentar. Só os olhos ainda se moviam. A notícia correu a cidade e causou verdadeira peregrinação à casa do médico, no subúrbio modesto. Assim como acontecia no seu consultório, pobres e ricos misturaram-se em sua casa para visitar o doente.
A cena era singular: cada pessoa entrava uma a uma no quarto onde estava Bezerra , sentava-se em uma cadeira, não falava nada,— já que ele não poderia responder — ficava alguns minutos e saía comovida pelo olhar que Bezerra lhe dirigia. A procissão seguiu-se dia e noite.

No dia 11 de abril de 1900, na casa da Rua 24 de maio, Bezerra passou suavemente para a Vida Maior. A cidade agitou-se com o seu desencarne, esteve presente no sepultamento do Médico dos Pobres e prestou-lhe homenagens.

Na Espiritualidade, Bezerra foi recebido pelas hostes do bem com louros de amor . Os anos de trabalho como verdadeiro servo do Cristo encarnado na terra transformaram-se em luzes para seu espírito, conferiram-lhe verdadeiro galardão espiritual. “Bezerra desprendeu-se do orbe, tendo consolidado a sua missão”.

Um “Causo” do Dr. Bezerra

Digno de registro foi um caso sucedido com o Dr. Bezerra de Menezes, quando ainda era estudante de Medicina. Ele estava em sérias dificuldades financeiras, precisando da quantia de cinqüenta mil réis (antiga moeda brasileira), para pagamento das taxas da Faculdade e para outros gastos indispensáveis em sua habitação, pois o senhorio, sem qualquer contemplação, ameaçava despejá-lo.

Desesperado - uma das raras vezes em que Bezerra se desesperou na vida - e como não fosse incrédulo, ergueu os olhos ao Alto e apelou a Deus.

Poucos dias após bateram- lhe à porta. Era um moço simpático e de atitudes polidas que pretendia tratar algumas aulas de Matemática.

Bezerra recusou, a princípio, alegando ser essa matéria a que mais detestava, entretanto, o visitante insistiu e por fim, lembrando- se de sua situação desesperadora, resolveu aceitar.

O moço pretextou então que poderia esbanjar a mesada recebida do pai, pediu licença para efetuar o pagamento de todas as aulas adiantadamente. Após alguma relutância, convencido, acedeu. O moço entregou- lhe então a quantia de cinqüenta mil réis. Combinado o dia e a hora para o início das aulas, o visitante despediu- se, deixando Bezerra muito feliz, pois conseguiu assim pagar o aluguel e as taxas da Faculdade. Procurou livros na biblioteca pública para se preparar na matéria, mas o rapaz nunca mais apareceu.

No ano de 1894, em face das dissensões reinantes no seio do Espiritismo brasileiro, alguns confrades, tendo à frente o Dr. Bittencourt Sampaio, resolveram convidar Bezerra a fim de assumir a presidência da Federação Espírita Brasileira.

Em vista da relutância dele em assumir aquele espinhoso encargo, travou- se a seguinte conversação:

Bezerra - Querem que eu volte para a Federação. Como vocês sabem aquela velha sociedade está sem presidente e desorientada. Em vez de trabalhos metódicos sobre Espiritismo ou sobre o Evangelho, vive a discutir teses bizantinas e a alimentar o espírito de hegemonia.

Bittencourt Sampaio - O trabalhador da vinha é sempre amparado. A Federação pode estar errada na sua propaganda doutrinária, mas possui a Assistência aos Necessitados, que basta por si só para atrair sobre ela as simpatias dos servos do Senhor.

Bezerra - De acordo. Mas a Assistência aos Necessitados está adotando exclusivamente a Homeopatia no tratamento dos enfermos, terapêutica que eu adoto em meu tratamento pessoal, no de minha família e recomendo aos meus amigos, sem ser, entretanto, médico homeopata. Isto aliás me tem criado sérias dificuldades, tornando- me um médico inútil e deslocado que não crê na medicina oficial e aconselha a dos Espíritos, não tendo assim o direito de exercer a profissão.

Bittencourt - E por que não te tornas médico homeopata? 

Bezerra - Não entendo patavinas de Homeopatia. Uso a dos Espíritos e não a dos médicos.

Nessa altura, o médium Frederico Júnior, incorporando o Espírito de S. Agostinho, deu um aparte:

S.Agostinho - Tanto melhor. Ajudar-te-emos com maior facilidade no tratamento dos nossos irmãos.

Bezerra - Como, bondoso Espírito? Tu me sugeres viver do Espiritismo?
S.Agostinho - Não, por certo! Viverás de tua profissão, dando ao teu cliente o fruto do teu saber humano, para isso estudando Homeopatia como te aconselhou nosso companheiro Bittencourt. Nós te ajudaremos de outro modo: Trazendo- te, quando precisares, novos discípulos de Matemática...


Referências Bibliográficas:Xavier, Chico; “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”
Acquarone, Francisco; “Bezerra de Menezes o Médico dos Pobres”, Aliança. Abreu, Canuto; “Bezerra de Menezes”, FEESP.
Soares, Sylvio; “Vida e Obra de Bezerra de Menezes”, FEB.
GAMA, R. “lindos Casos de Bezerra de Menezes”. São Paulo, Lake.
Movimento Espírita Kardecista:
http://www.movimentoespirita.hpg.ig.com.br/
Portal do Espírito
http://www.espirito.org.br/portal/biografias/adolfo-bezerra.html

Fonte:
http://www.amebrasil.org.br/html/perfil_bezerra.htm

Pilula de Consolo